não tem papel passado
nem cerimónia religiosa
(parte II)
A tradição começou com um chá, servido para as visitas no pátio que serve de sala de estar do casal. Arlindo estava sozinho; desde a véspera, Milagrosa havia ido para a antiga casa onde morou e onde actualmente vivem suas irmãs solteiras e algumas tias e primas. Tanto a mãe quanto o pai dela já morreram, mas os tios encarregaram-se de fazer os pedidos e Arlindo limitou-se a cumpri-los. O noivo mostrou aos parentes quais foram as exigências da família de Milagrosa para o lobolo: um fato com sapatos e camisa para o tio da noiva, capulanas, mukume e vemba (tecidos floridos tradicionais) para as tias, 12 litros de vinho, quatro caixas de sumos e cerveja, uma esteira de palha (a cama do casal), 8,5 mil meticais (MT - moeda moçambicana) em dinheiro (cerca de R$ 400, equivalente a 3,5 salários mínimos moçambicanos), além de uma vaca, cujo preço na região fica entre MT 8 mil e MT 12 mil, dependendo do peso e da idade do animal. Três pequenos potes de rapé completavam o rol de solicitações.
Arlindo, que é alfaiate no vilarejo, demorou quase dois anos para recolher tudo. Sem ordenado fixo, estima que os seus ganhos variem entre MT 3,5 mil e 4,5 mil por mês. Queria ter podido fazer tudo antes, mas isso não foi possível. “Só agora tenho como cumprir a tradição. É uma forma de agradecer aos pais dela por a terem guardado bem e me confiarem agora a sua filha”, diz ele.
Num canto do quintal, Madalena, a segunda esposa de Arlindo, acompanha tudo à distância. Ela também não foi lobolada, mas espera pela sua vez. A primeira esposa deve ser lobolada antes. Arlindo tem dois filhos com Madalena, que é mais jovem que Milagrosa.
Não há limite para os casamentos tradicionais. Um homem pode ter tantas esposas quantas puder manter. Tradicionalmente, mulher que é lobolada fica casada para sempre. Se o marido quiser outra esposa, costuma levá-la junto. Nas cidades, a lei (que proíbe a poligamia) e as regras cristãs da Igreja Católica - levada pelos portugueses a Moçambique - e das denominações evangélicas que cresceram muito nos últimos anos, têm feito com que a maioria dos homens tenha apenas uma mulher. Entretanto, o adultério é prática comum. As campanhas anti-SIDA (a doença é muito disseminada no país) costumam tratar do tema em peças publicitárias e até no material didáctico usado pelos estudantes nas escolas públicas.
À hora marcada, 09 da manhã, os parentes seguiram a pé até a casa da família da noiva, carregando o lobolo, a vaca inclusive, e cantando pelas ruas poeirentas de terra. Bem vestidos, recebem o carinho e a simpatia da vizinhança, que sempre se alegra em dia de lobolo. O nkulunguana, grito de alegria, de influência árabe, é ouvido em todo bairro. O noivo não acompanha este cortejo: só irá a casa da noiva se tudo correr bem e o lobolo for aceite.
Sempre cantando, as famílias encontram-se finalmente na entrada da casa de Milagrosa, que não tem portão ou grade – apenas um portal de madeira simples, enfeitado com flores para a ocasião. Um tronco na frente da passagem é retirado por uma das tias, em meio da cantoria, para mostrar que a visita é bem recebida. Cerca de 100 parentes aglomeram-se agora ali. As roupas são de festa: mulheres de vestidos longos e floridos, homens de camisa e fato completo, apesar do calor subir aos de 30 graus. Ao lado, jovens depenam galinhas que foram mortas ali mesmo, poucos minutos antes. Rapazes retiram o couro de um cabrito pendurado numa árvore – um dos três que serão servidos aos convidados. Também há xima (tradicional puré de farinha de milho), arroz e batata frita. Tudo cozido à lenha, em fogueiras típicas montadas no quintal.
A madoda confere os ítens longe dos convidados e dos noivos. Depois de algum tempo, junta-se aos demais numa roda no quintal. Senhoras com capulanas coloridas sentam-se no chão, sobre esteiras de palha. Aos mais velhos são oferecidas cadeiras. As mulheres cantam o tempo todo em xangana, a língua materna da maioria. As letras dos cantares recomendam paciência (tiyisela) e avisam a família visitante que, apesar das exigências, eles querem paz (kurhula).
A noiva sai do seu quarto acompanhada pelas irmãs. Apreensiva, ouve as considerações dos parentes sobre o lobolo e o noivo. O ancião da vila (nduna) oferece a palavra a quem deseje manifestar-se. Ao fim de quase uma hora, é dado o veredicto da comunidade: o lobolo foi aceito. Só então noivo é recebido e em festa. As tias e primas trazem os presentes da noiva: colheres de pau, tachos de madeira, uma enxada e capulanas coloridas. Não falta também um jarrão de plástico, para acartar a água necessária para as lides domésticas, água que é recolhida na única fonte existente no lugarejo.
Começa o almoço, que se estenderá até o fim da tarde, quando o sol for embora. Sem a interferência de um «juiz de paz» ou de qualquer líder religioso, Arlindo, Milagrosa e os quatro filhos, passam agora a ser, pelas regras tradicionais africanas, uma família reconhecida por todos.
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