O riso da amargura
Não se pode dizer que o PS ganhou, simplesmente porque ganhou. O PS, na realidade, perdeu. Perdeu mais de meio milhão de votos e perdeu, consequentemente, a maioria absoluta de 2005 que lhe permitiu governar Portugal como (des)governou.
As eleições legislativas do passado dia 27 de Setembro, quer se queira quer não, devolveram ao país alguma da serenidade perdida e enviaram a José Sócrates um recado muito claro: os portugueses não querem que os sobressaltos sociais continuem como até aqui – na Saúde, na Justiça, no Ensino, no (de)Emprego, nas Empresas, et caetara– sobressaltos causados única e exclusivamente por uma governação de elevado grau de autismo político.
O PS não perdeu mais, não perdeu as próprias eleições, porque, como disse Alberto João Jardim, ‘o país endoidou’. O mesmo país governado por um Partido Socialista que levou o Presidente da República, Cavaco Silva, a declarar que “foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência”, acusando ‘destacadas personalidades’ socialistas de terem tentado manipular a Presidência da República antes das eleições com o ‘caso das escutas’.
Ferreira Leite não conseguiu fazer passar a sua mensagem – muito embora tenha tido a coragem de dizer que Sócrates nem consigo próprio fala a verdade – e, portanto, o PSD não logrou explicar aos portugueses coisas tão simples como, por exemplo, que o desemprego vai subir para 11 por cento já no próximo ano, que os professores vão ser obrigados a continuar a cantar o tema dos Xutos ‘ó senhor engenheiro’, que a carga fiscal escandalosa vai prosseguir na sua subida e que as empresas vão continuar a despedir e a fechar portas.
Ganhou, nestas eleições, a poderosa ‘máquina de propaganda’ socialista. Desde o caso da jornalista Manuela Moura Guedes ao da Presidência da República, passando pela pouca-vergonha do ‘Freeport’, tudo foi (e continua a ser!) branqueado por esses profissionais do engano.
Foram anos e anos de um (des)governo arrogante e prepotente, que levou à agonia empresários, professores, magistrados, polícias, militares, notários, médicos, enfermeiros, agricultores, pescadores, funcionários públicos em geral, et caetara.
Quando as coisas se mostram mais destrambelhadas, como, por exemplo, no caso da licenciatura de Sócrates na ‘Independente’, na falência técnica da TAP (2,4 mil milhões de passivo e contas do primeiro semestre deste ano no habitual ‘negativo’) ou na devolução a Bruxelas de 12 milhões de euros gastos indevidamente em despesas agrícolas ou nos 80 milhões de prejuízos acumulados pela RTP, para não falar de tantos outros ‘buracos’ deste Governo, a ‘máquina’ da propaganda de José Sócrates põe-se em campo e desata a passar cheques à custa do contribuinte, à custa de todos nós. Ou então faz-nos aquele infeliz gesto que fez o ex-ministro da Economia Manuel Pinho na Assembleia da República.
Manuela Moura Guedes é um caso a requerer séria reflexão dos portugueses, como igualmente o é o de Rui Teixeira, primeiro juiz do processo de pedofilia da Casa Pia, cuja nota ficou congelada pelo Conselho Superior da Magistratura após iniciativa de vogais designados pelo Partido Socialista.
Não há pormenor que fique descurado, que seja deixado ao acaso na eficácia do gabinete de propaganda socialista; e, quando é mesmo fundamental, quando as coisas atingem o ridículo, sobretudo em tempo de eleições, Sócrates faz acto de contrição e até pede desculpas: foi assim com os ‘corninhos’ de Pinho na AR, foi assim com as crianças de Castelo de Vide e a propaganda PS dos computadores Magalhães, foi assim com as camas do novo Hospital de Seia, retiradas após a inauguração, foi assim com o cigarro fumado a bordo da viagem de avião entre Lisboa e Caracas, et caetara.
Uma pergunta: após a saída dos resultados do dia 27 de Setembro, quem é que aparece ao lado de José Sócrates, dividindo com ele a euforia eleitoral, apesar de estarem ali presentes todos os ‘notáveis’ do PS? Eu respondo: nada mais nada menos que o (re)candidato à Câmara de Lisboa, António Costa. Acham que foi só ‘por acaso’ ou este gesto não é indiferente à dinâmica que Santana Lopes está a ter na corrida para o lugar de presidente, podendo mesmo vir a ganhar? Também acham que é ‘por acaso’ que volta de novo a público o assunto do Parque Mayer, na tentativa de atingir Santana Lopes? Também acham que é ‘por acaso’ que logo após o acto eleitoral surgem notícias sobre o negócio dos submarinos visando Paulo Portas e o CDS, partido que surpreendeu tudo e todos com os seus resultados eleitorais?
Os socialistas que passaram pela Câmara de Lisboa nada fizeram e não ficarão na história a não ser para se lhes apontar a sua passividade e/ou desorientação. Na memória dos lisboetas e do resto do país, desde Aquilino Ribeiro Machado, Jorge Sampaio, João Soares (derrotado por Santana Lopes) até aos dias de hoje, com António Costa, estão apenas as polémicas, as controvérsias, as intrigas palacianas e a ausência de uma simples ideia, um projecto ou uma ambição. Até o nosso conterrâneo Manuel Maria Carrilho, como vereador de Carmona Rodrigues foi um ‘zero’ à esquerda e acabou por apresentar a sua demissão… logo a seguir, perdeu as eleições com uma pírrica votação que o deixou com menos 30 mil votos que João Soares em 2001.
Nessas eleições, em 2005, Sócrates dizia que os «portugueses sabem distinguir que o que estava em causa era o poder local» e não o Governo.
Santana fez o túnel do Marquês de Pombal, entre muitas outras obras, e mais tarde o ‘Expresso’ escreve que é o túnel que lhe dá razão. A Divisão de Tráfego da CML afirma que passam hoje pela rotunda (à superfície ou no subterrâneo) mais cerca de 15 mil veículos/dia. Perguntem hoje aos taxistas o que pensam da obra, aos utentes, aos moradores e aos comerciantes da zona e ouvirão a realidade da outrora tão polémica obra, obra que até a qualidade do ar respirável melhorou, uma vez que agora os carros passam por baixo da estrada e não se verificam filas para descer para a rotunda do Marquês.
Nesta fase de campanha autárquica, de novo o PS ‘solta os cães’ contra o candidato do PSD à Câmara lisboeta, Pedro Santana Lopes. E porquê? porque fez obra que ninguém consegue meter ao bolso? porque na Figueira da Foz conseguiu concretizar o seu slogan “A Figueira está na Moda”, o que mais ninguém conseguiria e ainda hoje está bem presente na memória dos figueirenses? porque tem uma ideia concreta para o problema do Parque Mayer e outros que afligem Lisboa?
O Museu Guggenheim, em Bilbao, projectado pelo arquitecto norte-americano Frank Gehry, continua a ser hoje um dos locais mais visitados da Espanha, quiçá do mundo, e, contudo, foi a obra mais polémica de todos os tempos, podendo dizer-se que aos seus mentores pouco faltou para serem linchados em praça pública. Perguntem agora, aos espanhóis, concretamente a Bilbao, perguntem ao Mundo o que pensam daqueles que sonharam, um dia, voar mais alto e arrostaram contra os ‘velhos do restelo’.
Dou o Guggenheim como exemplo, antes de terminar e antes de pedir que sejamos todos lúcidos na nossa capacidade de pensar o futuro: Santana Lopes tem projectos e tem ideias para Lisboa e é isso que aflige Sócrates e o PS, incomodados com a possibilidade da Câmara de Lisboa mudar de mãos no próximo dia 11 de Outubro.
herculano da costa
P.S. (à margem)
Ontem, Sábado, foi dia de reflexão.
Portanto, lê os programas dos partidos e lê as notícias dos jornais, vê TV e ouve rádio. Mas... cuidado: é que eu já dei conta que anda por aí 'ene' daquele 'lixo' bloguístico a que já nos vão habituando - este blogue incluído - tanto no nosso burgo como nos outros burgos, em Portugal e no estrangeiro...!!! [o lixo é universal…]), lê os manifestos dos candidatos, discute com os amigos e com os inimigos (sabe melhor discutir com os inimigos e sabe ainda melhor discutir com as inimigas!), com os vizinhos e, depois, não fiques em casa. Vai lá beber uns copos no local indicado pela tua consciência e depois vai votar - se tiveres pachorra e idade para isso; não é tanto pelo nosso dever, porque a noção do ‘dever’ levava-nos muito longe, mas é mais por causa de uns quantos fdp que andam por aí a falar em nosso nome sem a gente lhes ter passado procuração!
PS (2):
Só te peço uma coisa: não votes, em Viseu, no Partido Socialista!... Não é por eu ter algo contra o Ginestal, mas é só por saber que o projecto dele para a cidade onde nasci e onde vivo não vale a ponta de um corno ou, se me faço entender, vale tanto como a meia dúzia de gajos que de há uns tempos para cá assumiram a propriedade do socialismo viseense...
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